terça-feira, 5 de outubro de 2010

capítulo 10 - Uma luz


O dia 24 de Abril ficou marcado na história, na reviravolta dos nossos destinos de devassidão e ultraje aos símbolos da normalidade. A novíssima polícia nascida da pequena guerra que destruiu toda a Lisboa e impôs um novo regime encarregou-se de alterar tudo.

André, foi brutalmente espancado junto ao Éden-Teatro, por alguém que dizia ser ele um comunista que roubava o pão dos pobres. As provas baseavam-se nos ditos. Houve mesmo quem lhe tentasse atear fogo, dizendo ser o gel obra do demónio, e todos seguiam cegos na sua razão ignóbil.

- Apanhem que é ladrão! Cortem-lhe a mão, ele é ladrão! Assassino comunista!
- Chulo da sociedade, mereces a morte, tens o demónio no cabelo...

E cuspiam-lhe para cima, e depois fugiam. Ouviam-se tiros.


De repente André deixava de ter gente a bater nele, passava a ter apenas um amontoado de mortos em cima dele. Nessa confusão conseguiu escapar aos exterminadores. A polícia da pureza e da beatitude.

Sem se poder mexer, começou a chorar, em absoluto silêncio, apenas esperando por algum momento em que acalmasse a fúria destruidora dos novos senhores de Lisboa. Que raio de pesadelo!

Mas a alma gritava, e sentiu-se tomado por uma sensação muito estranha, algo que nunca havia sentido antes, e as dores passaram, a paz sobreveio no meio da guerra suja que se havia instalado.

Sem saber como André viu-se num deserto, em pé, como se tivesse viajado no tempo e estivesse noutra vida. Viu um grupo de homens com mocas na mão, outros tinham pedras enormes e no centro um homem de corpo desprotegido rezava e sem nada o fazer prever olhou para André. Os homens na fúria desregrada não se aperceberam, André veio a descobrir que era apenas um invisível. Mas o homem, desprotegido que estava no meio da multidão enlouquecida, pronta a despejar as mocas e as pedras para cima dele, estava sereno. Passou essa serenidade a André. Afinal aquela era uma situação limite, de profunda radicalidade em que a vida se esvairia em sofrimento atroz. A vida, porque a alma daquele homem é eterna e esse olhar trespassou André, para sempre.

Uma voz entrou-lhe pelos ouvidos, de mansinho...

«Senhor Jesus, Tu escolheste S. Judas entre os teus Apóstolos e fizeste dele, para o nosso tempo, o Apóstolo das causas desesperadas. Agradeço-Te por todos os benefícios que me concedeste por sua intercessão e peço-Te que me concedas a Tua graça nesta vida para que possa participar um dia, na Tua glória, na alegria eterna. Amen.»

André nunca acreditou em Deus, talvez pelo exemplo depravado de Ismael, ou por sentir que a Igreja era o exemplo puro e duro da devassidão com as suas riquezas diabólicas, enquanto o mundo morria de guerras e à fome.

André sentiu-se abraçado e a força recebida de São Judas Tadeu fê-lo acreditar que o desespero daquele momento seria ultrapassado! 

Foi de tal forma intensa esta revelação que se tornou um devoto fanático para lá de todos os limites.

Três dias depois, André acordou, num sitio escuro, pleno de sujidade e rodeado de desencanto. À sua frente alguém rezava

- Mãe, o senhor acordou, o senhor acordou! - estava uma menina de cerca de seis anos, com o espanto de uma vida que renascia

- Eu... onde...
- Tenha calma senhor! Felicidade, traz um pano molhado, o homem ainda arde em febre
- Salvem-no daqueles loucos! Salvem-no por Jesus!
- Há três dias que delira meu querido! Fique sereno... aqui apenas há amor!

Aquele olhar dócil, fazia-o lembrar uma prima por quem se havia perdido de amores em adolescente. E que havia enlouquecido por um casamento que sempre se regera pelo interesse... por instantes, sentiu um pudor intenso, era como se tivesse atracção por uma irmã.

- Durma meu querido, o comprimido que lhe dei vai fazê-lo sair dessa prisão.

- Onde estou? - e adormeceu...

Sem comentários:

Enviar um comentário